quinta-feira, 24 de julho de 2008

RITUAIS PSICODÉLICOS NA ERA PLANETÁRIA

imagem: dança ritual (Zaire - África)



O espírito de um homem é capaz de tudo – porque tudo está nele, todo o passado e todo o futuro.
Joseph Conrad (Heart of Darkness)

Nas últimas décadas do século XX um novo movimento musical, conhecido como “cultura global do transe psicodélico”[1], espalhou-se pelo mundo por meio de uma união entre música eletrônica, dança, natureza e utilização de substâncias que agem nas esferas física, psíquica e espiritual. Para compreendermos a complexidade que envolve os festivais psicodélicos que acontecem atualmente no Brasil, torna-se fundamental voltarmos às raízes desses encontros no sentido descobrir o contexto em que surgiram. Os dados encontrados a respeito desse estilo musical associam suas raízes a Goa (Índia) e limita-se a uma fonte ideológica que relacionou essa música à espiritualidade que naquele momento era buscada no misticismo oriental.
Se por um lado parece tentador atribuir o nascimento desse estilo musical e festivo a um local específico, por outro, torna-se importante considerar essa emergência como uma mistura de fenômenos que aconteceram simultaneamente em alguns países e que tiveram como ponto de encontro as praias de Goa em determinado momento, mas que foram disseminados por todo o planeta por intermédio dos músicos e demais viajantes.
De acordo com as referências a respeito do movimento, foi em meados de 1990 que o estilo musical eletrônico conhecido como psychedelic trance[2] se misturou ao cenário de Goa, na Índia, que desde os anos 1960 é a Meca de hippies[3], viajantes e freaks[4]. Com sua natureza paradisíaca, misticismo hindu e tradição hippie-psicodélica, o local tornou-se um grande atrativo para a cultura das raves.
O estilo eletrônico trance que foi tocado nas festas de Goa já vinha sendo produzido e executado na Alemanha, onde a cena se expandia consideravelmente; assim como na Inglaterra, onde a dominância dos breakbeats hardcore ganhava a cena das raves que aconteciam durante o dia em locais afastados das cidades. Tanto os hippies quanto os punks tornaram-se parte da cena rave eletrônica, assim como outros viajantes que passavam pela Alemanha, Inglaterra, Austrália, Japão e levavam em suas bagagens não só a música, mas também as idéias relacionadas a esse novo cenário, que proporcionou uma fusão de tecnologias musicais do Ocidente com as riquezas milenares do Oriente relacionadas às suas sonoridades e à espiritualidade.
Outro importante fato foi o estímulo dado por alguns jornais ingleses ao citarem Goa como um balneário alternativo destinado aos turistas que buscavam locais como Ibiza para passar o verão dançando ao som eletrônico. Não por acaso, tanto Ibiza quanto Goa se tornaram lugares mitológicos para a história das raves (Sebastian Chan, 1998).
Dessa mistura característica da era planetária surgiu um novo tipo de encontro social baseado no estilo musical psychedelic trance – transe psicodélico –, que desde então vem ultrapassando todas as fronteiras continentais até se tornar, no século XXI, um fenômeno global que acontece simultaneamente em alguns pontos do planeta.
No Brasil, foi por volta de 1998 que esse estilo musical e festivo chegou por intermédio dos estrangeiros e também dos brasileiros que viviam fora do país. Trouxeram a nova música juntamente com as novas substâncias envolvidas na realização das primeiras festas que aconteceram em Arraial D’Ajuda e Trancoso (Bahia) e depois em locais próximos da grande metrópole São Paulo (ver Anexo I: Histórico). Desde então, tanto a música trance quanto as festas e festivais psicodélicos começaram a ser produzidos internamente no país, e pela divulgação e da conseqüente comercialização do estilo, os festivais, que antes atraíam duzentas pessoas, hoje envolvem um público de até 7 mil.
Como foi mostrado na “jornada psicodélica”, a primeira vez que a pessoa participa de um festival esse ato torna-se um marco, uma passagem de um estado a outro, uma iniciação, que tem sentido específico para quem se permite vivenciar uma abertura, pois estimula certa entrega para experiências que poderão ter tanto resultados positivos quanto negativos na vida das pessoas.
Considerando a etimologia da palavra “iniciação”, pode-se dizer que é simplesmente o começo de algo. Ao iniciar um caminho abre-se a possibilidade de conhecer novos espaços e descobrir algo diferente; trata-se, enfim, da possibilidade de ampliar as fronteiras conhecidas. Se o que se inicia envolve uma experiência energética tanto individual quanto coletiva, o corpo passará por transformações, assim como o estado de consciência será alterado.
Neste caso estamos iniciando aqui nossa jornada por um universo novo, que até então vem sendo mal compreendido e sofre constantes agressões e repressões por parte das instituições que regem nossa sociedade. Essas instâncias apresentam uma imensa dificuldade em aceitar as novas formas de interação social que se manifestam por meio dos festivais de música eletrônica que acontecem no Brasil, associando-os apenas ao uso de drogas ilegais.
Diante dos marcos das grandes transformações que geram e regeneram o século XXI, a globalização está associada a um momento planetário em que se tornou possível o deslocamento à velocidade do som. A Internet já absorveu a televisão, o que nos permite saber com razoável exatidão como são os lugares mais distantes de nossa realidade e o que acontece neles. Nesse contexto fluido e virtual alcançado pelas mais recentes descobertas tecnológicas inscreve-se a música eletrônica, que hoje é apropriada principalmente por determinado setor juvenil “informatizado”, o qual utiliza signos e símbolos que o diferencia na paisagem contemporânea.
A velocidade da informação, hoje acessível pelos meios de comunicação e suas tecnologias digitais, dinamiza espaços sociais globais relacionados a novos processos informacionais, criando novas maneiras de divertimento e relações interpessoais. É nesse contexto que a pesquisa é realizada.
Ao olharmos para esse novo movimento social abrimos a possibilidade de conhecer uma nova expressão ritual da sociedade contemporânea, que pouco tem a ver com as instituições do “deve ser” ditadas pela mídia televisiva e pela moral cristã, mas que considera com seriedade os valores e conhecimentos ancestrais a respeito do transe e do êxtase e os adotam como excitantes para experiências que rompem barreiras culturais e raciais.
Diversos estudos na área antropológica e histórica abordaram a música em seus usos tradicionais e apontam para o poder que essa expressão tem de mover os indivíduos e estimular uma experiência coletiva comum. Esta pesquisa propõe-se a demonstrar o poder da música trance e sua relação com a dança e com o uso de substâncias psicoativas, considerando suas funções rituais, que envolvem principalmente a união coletiva, o estado de transe e a experiência extática.

imagem: Festival Trancendence 2005
O poder da música e sua eficácia simbólica são aprendidos e incorporados por meio dos assíduos participantes, que encontram na dança uma possibilidade de expressão criativa. Sendo assim, os membros da celebração buscam de diferentes maneiras sintonizar-se com as freqüências do transe psicodélico e com os instantes eternos de “êxtases coletivos”, nos quais espaço e tempo desaparecem em um misterioso fluir de energias.
O que tenho constatado frente a comparações é que a mais importante, profunda e transcendente característica do ritual é a expansão energética, ou seja, a transformação que ocorre a partir daquela experiência específica. Os participantes dos festivais psicodélicos chamam essa energia de vibe – vibração –, que corresponde à energia produzida por intermédio da vibração da música, do ambiente, da dança, das pessoas e dos elementos que compõem o cenário. A observação de campo mostrou que a vibe pode ser boa ou ruim, dependendo da harmonia entre os fatores que compõem a experiência e vão além das fronteiras da vida cotidiana, mobilizando o fluxo de energia e consciência dos indivíduos, enquanto parte de um coletivo anteriormente disperso.
Em todas as entrevistas realizadas, quando eu questionava o entrevistado sobre sua primeira vez em um festival psicodélico, ou seja, quando e como havia sido sua iniciação, percebi respostas semelhantes. Era freqüente ouvir longas respirações misturadas com gargalhadas de alegria, seguidas da seguinte colocação: “Nossa [suspiros], a primeira vez foi muito forte, mudou a minha vida!”[5].
É possível, portanto, admitir que quando uma pessoa é iniciada em um festival de transe psicodélico, estará conseqüentemente iniciando-se em um ritual energético, em geral sagrado para quem o efetua. Podemos dizer que se o ritual for corretamente realizado, a transformação energética ocorrerá. Um ritual está relacionado a determinados modos de ação, que servem como técnicas para mudar o status moral da pessoa de profano para sagrado ou vice-versa. A seqüência, como propõe Leach (1974: 207), engloba quatro fases distintas. Primeiro acontece a separação da vida cotidiana, na qual a pessoa é transferida do mundo secular profano para o sagrado e experiência, conseqüentemente, a “morte simbólica” para a inserção em um período de reclusão ritual. Na segunda fase, denominada “estado marginal”, a pessoa moral está numa condição comportamental distinta, vivenciando uma espécie de animação em suspensão, em que o tempo social ordinário pára. Na terceira fase ocorre o rito de dessacralização, ou agregação, na qual a pessoa é trazida de volta do mundo sagrado para o profano e vivencia o renascimento simbólico no tempo secular que começa novamente. E, por fim, a vida cotidiana regular volta ao normal, representando o intervalo entre os festivais sucessivos.
Os ritos de passagem estão relacionados à demarcação dos estágios do ciclo vital humano e devem estar ligados com alguma espécie de representação do tempo pendular alternado. Os festivais acontecem em intervalos sucessivos e em geral se repetem nas mesmas datas todos os anos. Como uma substituição ritual, a maioria dos festivais é marcada nos feriados do calendário gregoriano que segue o tempo cristão, representando a necessidade dos que não participam mais dos rituais católicos de continuarem ordenando o tempo social.
Os rituais revelam os valores no nível mais profundo. Os homens expressam no ritual aquilo que os toca mais intensamente, e sendo a forma de expressão convencional, os valores do grupo é que são revelados. O estudo do ritual de transe psicodélico é uma chave para compreendermos as vias tecnológicas e globalizadas que compõem o cenário contemporâneo.
No livro O processo ritual: estrutura e antiestrutura, Turner (1974: 25) considera o comportamento ritual como sendo de fundamental importância para a manutenção e a transformação radical das estruturas psíquicas e sociais. O autor especifica que o comportamento ritual estereotipado envolve gestos, palavras, objetos que limitam o espaço da performance, implicando a necessidade de um ambiente especial para a realização do mesmo. Em sua pesquisa realizada entre o povo ndembo, ele delimitou como sendo seu principal objetivo explorar a semântica dos símbolos rituais e construir, a partir da observação, um modelo de estrutura desse simbolismo, visando atingir “a visão interior ndembo” – o modo como os ndembos sentem seu próprio ritual e o que pensam a respeito dele.
Para a maioria dos participantes entrevistados durante a pesquisa, a iniciação ritual e a conseqüente transformação energética impulsionada pela vibe coletiva apresentaram-se como um mistério que os tocaram profundamente. O mistério em questão não é um território inexplorado que desaparecerá depois de conhecido. Trata-se de algo menos terreno, menos concreto, que existe em dimensões às quais nunca teremos acesso a partir do plano em que nos encontramos na vida cotidiana.
MacAteer (2002) investigou o fenômeno das festas que aconteceram em Goa (Índia) e eram organizadas em torno do DJ Goa Gil, freqüentemente aclamado como o “pai do Goa trance”. Para ele, a criação dessas festas pode ser compreendida como uma redefinição dos antigos rituais tribais para o século XXI. A idéia de festa como ritual está associada ao ato de dançar durante toda a noite aos sons rítmicos que guiam os estados de transe, comparável aos rituais tribais do passado. No entanto, ao aproximar-se da narrativa dos criadores e participantes, ele percebeu que o conceito de festa como ritual está ligado a uma comparação com as proporções religiosas desses eventos como uma variação de formas de espiritualidade ou êxtase religioso.
O autor concluiu que os participantes se tornam convencidos de que existe algo além do que é tipicamente entendido por uma “festa”. Nesses encontros, temos a experiência mística associada tanto ao transe quanto ao êxtase coletivo. Sendo assim, o termo “festa” ou mesmo “festival” se torna inadequado para descrever a percepção dos participantes nesse tipo de encontro coletivo. Assim, os antigos integrantes do movimento utilizam o termo “ritual” para vislumbrar as extraordinárias qualidades que os participantes percebem em suas celebrações.
D’Andrea (2005) escreveu sobre a “economia espiritual das raves em Goa” e chegou à conclusão que existe uma afinidade entre a cultura rave psicodélica e a espiritualidade da contracultura. Para o autor, as psychedelic trance parties (festas de transe psicodélico) de Goa são raves orientalistas que misturam a tecnologia psicodélica com a iconografia hinduísta, como estímulos a uma subcultura que deve ser considerada em seu momento histórico e político, visto que está envolvida com a globalização e o uso das novas tecnologias – de som digital – e também tecnologias químicas-psicofarmacológicas – como o MDMA (ecstasy) e o LSD (ácido lisérgico), substâncias mais utilizadas nesses encontros, como estímulos para as experiências transpessoais que envolvem hoje um movimento global.
O autor identificou nesse grupo uma “espiritualidade nômade” envolvendo o centro do movimento de música e dança psicodélica que se espalhou pelo mundo e identificou a emergência de novas formas de vida, devido ao fato de estas pessoas estarem envolvidas com experiências em diversas culturas e estarem vivenciando intensamente a complexidade da globalização em suas formas de criação artística e sustento diário (trabalho). No entanto, é questionável se a espiritualidade está a serviço da busca de experimentações hedonistas, de um grupo cosmopolita que se mantém como uma comunidade móvel que dissolve, por meio da alta tecnologia, as barreiras de espaço e tempo possibilitadas pelo processo de globalização.
Larkin (2003) também desenvolveu uma exploração entre a relação do uso de substâncias “enteógenas”[6] com a emergência global dos rituais “techno-xamânicos” – nome atribuído pelo autor às festas e festivais de trance psicodélico–, pois defende que esse fenômeno representa uma redefinição dos antigos rituais (que empregavam as técnicas de produção do êxtase) por meio das novas tecnologias. Sua tese mostra que foi por intermédio da revolução psicodélica e da reinserção das substâncias “expansoras da consciência” no contexto do paradigma ocidental que foi impulsionado o desenvolvimento da cultura psicodélica global, a qual utiliza os recursos tecnológicos para redefinir as práticas extáticas na sociedade contemporânea.
O autor afirma que tais manifestações representam o “retorno do arcaico” sugerido por Terence McKenna; um meio moderno para explorações a respeito das curas xamânicas e dos poderes terapêuticos de substâncias amplamente utilizadas pelas culturas arcaicas, possibilitando, conseqüentemente, novas formas de experienciar os antigos conhecimentos envolvidos nos rituais que foram por muito tempo banidos de nossos “olhos” e “sentido,” por constituírem expressões do “paganismo” radicalmente proibido pelo catolicismo ocidental.
Fontanari (2004b), em sua pesquisa “Sensibilidade eletrônica: música e ritualidade jovem contemporânea”, considerou o fenômeno rave como uma expressão da religiosidade contemporânea que adota práticas místico-alternativas relacionadas à música eletrônica, as quais adquirem sentido em um contexto cosmológico e social que remete à condição presente da cultura nos mundos ocidentais urbanos que viabilizam elementos “transculturais”. O autor também se refere ao consumo de substâncias psicoativas como prática cultural jovem nas festas de música eletrônica. Partindo do pressuposto de que este consumo tem um sentido definido nessas práticas e de que este sentido é dado com base em três dimensões interconectadas – rituais, distinção ideológica e agenciamento jovem –, o pesquisador constatou que o sentido atribuído pelo grupo ao uso ritual dos psicoativos com a finalidade de facilitar o “descontrole” do corpo “egocêntrico” choca-se diretamente com a legitimidade reivindicada pelo Estado sobre o controle do uso e comércio de substâncias consideradas perigosas.
Em “Usos do corpo nos festivais de música eletrônica”, Coutinho (2006) desenvolveu uma pesquisa antropológica que encontrou no corpo o principal veículo de construção do ethos rave, ao constatar que existe uma preocupação com a apresentação do “eu” para os “outros”, o que poderia significar algum tipo de controle num ambiente aparentemente sem regras. Formulou essa explicação a partir da reflexão sobre a razão do uso de dois adereços usados pela maioria dos participantes – os óculos escuros e o chiclete –, que estão relacionados à aparência dos estados alterados do metabolismo (dilatação da pupila e bruximo), causados pelo uso de determinadas substâncias. O autor constatou que o estado ideal buscado pelo grupo seria o de “êxtase”, e não o abuso de drogas, que pode ser evitado a partir do controle do grupo sobre os excessos cometidos pelos indivíduos.
Nos festivais são definidas regras formais e informais de comportamento relacionado ao “uso de substâncias psicodélicas”[7], que nesse contexto abarca uma grande variedade, desde as mais naturais até as mais novas substâncias sintetizadas em laboratório. Nesses ambientes, a maioria dos participantes faz uso dessas substâncias sintéticas, as quais são principalmente empregadas para alterar o estado de consciência (físico, psíquico e espiritual). Os estados alterados de consciência são um fenômeno universal, e o uso de uma grande variedade de substâncias para alcançá-los é reconhecido através da história.



“No início da humanidade era assim, as tribos se reuniam em rituais, para dançar, para curar, para se comunicar com o mundo espiritual, para celebrar a natureza; e utilizavam também a música e as substâncias psicoativas como portais para tais experiências.” Charles Oliveira, VJ – artista multimídia. (Entrevista realizada no dia 3/6/2004)

Considerando o fato de que a maioria dos antropólogos[8] se devotou a registros detalhados e minuciosos das crenças e ritos de inúmeros povos tribais espalhados sobre a face da Terra, muitas riquezas de informações sobre as variedades de experiências espirituais podem ser hoje utilizadas como material para comparações. A espiritualidade[9] e o êxtase se tornaram o centro da análise comparativa realizada por Lewis (1971: 20) que descreveu o público psicodélico “engajado na busca de novas formas de iluminação religiosa e excitação” como um grupo social que confirma a primazia da experiência mística e proclama a posição amplamente aceita de que todo encontro transcendental é único e só pode ser apreendido por meio da experiência pessoal e direta.
A nível individual isso é evidentemente verdadeiro. Mas não altera o fato de que a experiência mística, como qualquer outra, está baseada e se relaciona com o ambiente social em que é experimentada, representando assim a cultura e a sociedade da qual faz parte. Desse modo, é interessante considerar a diversidade das diferentes formas como as culturas conceituam e tratam experiências como o transe e o êxtase, as quais envolvem a alteração do estado de consciência. Esta pesquisa buscou compreender como tais experiências estão sendo usadas na sociedade contemporânea, regida pela tecnologia, pela velocidade, pela globalização da informação e pela permeabilidade das culturas.

[1] Trance Global Psychedelic Culture (Shangri-la-la: TranceGlobal Psy-Culture Magazine; n. 5/ winter 2003/2004). Disponível em: <http://www.shangri-la-la.go.uk/>. Acesso em: 5 março 2005. (Anexo II)
[2] Trance significa transe. Leach definiu o “transe” (de acordo com o Peguin Dictionary of Psychology: 1971: 41) como um “estado de dissociação, caracterizado pela falta de movimento voluntário e freqüentemente por automatismo no ato e pensamento, representados pelos estado hipnótico e mediúnico”. Assim entendido, transe pode compreender dissociação mental completa ou apenas parcial e é com freqüência acompanhado de visões excitantes ou “alucinações”, cujo conteúdo nem sempre é lembrado subseqüentemente de maneira tão clara. O autor destaca que os estados de transe podem ser imediatamente induzidos na maioria das pessoas normais por uma série de estímulos, aplicados separadamente ou combinados. Técnicas consagradas incluem a ingestão de bebidas alcoólicas, sugestão hipnótica, música e dança, ingestão de drogas, como a mescalina ou ácido lisérgico, e outros alcalóides psicotrópicos. O mesmo tipo de efeito pode ser produzido, mais lentamente, por meio de privações, tais como o jejum e a contemplação ascética (meditação transcendental). E psychedelic significa psicodélico, termo que foi criado pelo psiquiatra Humphry Osmond em 1953, para designar “algo com a capacidade de ampliar ou manifestar a mente”. (Cashman 1966: 17-18)
[3] Hippies: este foi o nome atribuído aos jovens ocidentais que nos anos 1960 participaram de movimentos culturais ou contraculturais que reivindicavam a extensão dos direitos de livre disposição do corpo e de autonomia sobre si próprio. “Como parte destes movimentos destacavam-se os que discutiam questões de política sexual, de gênero (o movimento feminista), e de opção sexual (o movimento homossexual). O uso voluntário do corpo para fins de prazer sexual se coligava à reivindicação da autonomia crítica da consciência, da recusa em se permitir ao Estado uma jurisdição química sobre a mente que busca controlar o que se ingere ou se introduz voluntariamente no interior do corpo. O movimento psicodélico representou uma defesa política da autonomia sobre a intervenção psicoquímica voluntária contra a política oficial do proibicionismo estatal” (Carneiro, 2005 : 8)
[4] Freak é um termo genérico utilizado pela contracultura ocidental de 1990 para designar uma mistura de elementos das subculturas hippies, psicodélicas e punks, rejeitando as formas dominantes do capitalismo, consumismo, conformismo e intelectualismo. Os freaks apresentam uma admiração pelo modo de vida rústico, pelas viagens exóticas, psicodelía e vida comunitária. No entanto, aderem às novas tecnologias (música eletrônica e Internet) e relativamente não participam de forma direta na transformação da sociedade (Anthony D’Andrea, 2005).
[5] Esse exemplo foi retirado da entrevista com Rogério Lamart (musicoterapeuta e ativista planetário).
[6] Enteógenos: o termo foi proposto em 1978 pelo investigador Gordon Wasson e outros para referir-se às plantas que têm sido usadas como instrumentos sagrados de êxtase (Ott, 1995).

[7] Optei aqui pelo termo “substâncias psicodélicas” pelo fato de que essa é a terminologia adotada pelos adeptos do movimento, mesmo compreendendo que muitas das substâncias utilizadas nesse contexto não são de caráter psicodélico, que diz respeito à capacidade de ampliar ou manifestar a mente. E ressalto que o “uso de substâncias psicodélicas ” é uma escolha individual de cada participante. Das 35 entrevistas que realizei, oito pessoas afirmaram não utilizar nenhum tipo de substância nesse contexto (nem mesmo álcool ou tabaco).
[8] Ao propor uma sociologia do êxtase, Lewis destaca que: “A tarefa do antropólogo é descobrir em que acreditam as pessoas, e relacionar operacionalmente suas crenças e outros aspectos de sua cultura e sociedade. Ele não tem nem a capacidade nem a autoridade de se pronunciar sobre a ‘verdade’ absoluta das manifestações extáticas em diferentes culturas” (Lewis, 1971: 23). Portanto, os julgamentos, referentes ao significado das experiências relacionadas aos festivais de transe psicodélico, só serão relevantes à nossa análise antropológica na medida em que são feitos pelos participantes em cujo meio essas experiências ocorrem.
[9] Para evitar equívoco, é importante fazer uma distinção entre espiritualidade e religião. A espiritualidade baseia-se em experiências diretas com aspectos e dimensões não-comuns da realidade e não requer um lugar especial ou uma pessoa oficialmente apontada pra mediar o contato com o divino. Os místicos não precisam de igrejas ou templos. O contexto em que experienciam as dimensões sagradas da realidade, incluindo sua própria divindade, são seus corpos e a natureza. E, em vez de ordenar padres, eles precisam do apoio de um grupo de companheiros de busca ou da orientação de um mestre que esteja mais avançado na jornada interna (Grof, 2000: 204).

2 comentários:

Fak8 disse...

ENFIM UM BLOG SÉRIO QUE TRATA DA NOSSA CULTURA, MEU VCS ESTÂO DE PARABENS, NAO ABANDONEM POR FAVOR

Eduardo Amorim - Recife PE disse...

Parabéns por tudo! Até q emfim alguem conseguiu juntar todos os verdadeiros significados dessa cultura q deveria ser tratada com muito mais respeito e seriedade! Obrigado!